Como a Dinamarca quer se tornar o primeiro país com agricultura 100% orgânica

E se a preocupação com os efeitos dos agrotóxicos pudesse simplesmente desaparecer do seu cotidiano? Esse é o ambicioso objetivo da Dinamarca, que trabalha para se transformar no primeiro país com a agricultura 100% orgânica.

A RFI foi ao país para entender como será possível chegar a essa façanha, que começou a ser plantada há 20 anos. Políticas públicas específicas foram adotadas para, de um lado, estimular os agricultores a mudar e, de outro, atiçar o apetite dos consumidores por produtos ecológicos. Ao mesmo tempo, a superfície agrícola com cultivo orgânico foi planejada para dobrar até 2020, em relação aos índices de 2007.

O plano em curso tem um orçamento de € 53 milhões, essenciais para a ampliação dos subsídios e incentivos para os produtores de orgânicos. Graças à ajuda, profissionais habituados às grandes cidades, como o casal de engenheiros químicos Elisabeth e Otto Rasmussen, puderam jogar tudo para o alto e abraçar o sonho de levar uma vida mais tranquila no campo. Eles começaram com um pequeno sítio nos anos 1990.

Hoje, mantêm uma propriedade de 134 hectares em Birkerød, onde cultivam frutas e legumes orgânicos e proporcionam condições ideais de desenvolvimento para suas vacas, que vivem soltas a maior parte do tempo.

“Todos os dias, vendemos aqui na nossa loja os legumes colhidos no próprio dia. Os clientes podem passear no campo e ver de onde vêm os produtos. Fazemos questão de fazer explicar tudo que fazemos para os clientes, para que eles entendam a relação entre esse trabalho cuidadoso e o verdadeiro gosto das frutas e legumes”, afirma Otto.

Comprar orgânicos se tornou um hábito

As políticas de Estado fizeram os dinamarqueses se ligarem à causa: mais da metade da população compra pelo menos uma vez por semana produtos orgânicos, como Camila, uma mãe frequentadora de um café na capital, Copenhague. “A cada vez que faço compras, compro pelo menos 70% de orgânicos. Sou vegana há muitos anos, mas compro carne para a minha família. E me preocupo muito com a questão do bem-estar animal.”

Faz tempo que os produtos orgânicos se expandiram pra bem além dos mercados especializados, como explica Kirsten Lund Jensen, responsável pelas questões de ecologia no Conselho Dinamarquês de Agricultura e Alimentação.

“Na Dinamarca, podemos encontrá-los facilmente em supermercados do tipo ‘atacadão’. No início, os produtores ficaram com medo da desvalorização dos produtos. Mas se quisermos ampliar de verdade um setor, é preciso ter volume. Não podemos ficar num mercado de nicho”, ressalta Jensen. “Então, massivamente, os agricultores foram transformando suas produções em orgânicas e isso permitiu baixar os preços para os consumidores.”

Cadeia de produção e consumo

Neste meio tempo, a indústria alimentícia também percebeu o tamanho do mercado e diversificou a gama de produtos oferecidos. A explosão do setor levou a um problema inusitado: a superprodução.

Em Åbyhøj, na periferia de Aarhus, a segunda maior cidade do país, fica a maioria associação dinamarquesa de produtores e distribuidores de orgânicos, a Organic Denmark.

No hall de entrada, é exibida uma medalha recebida das Nações Unidas no ano passado, em reconhecimento à promoção dos orgânicos na política alimentar do futuro. “Essa medalha reconhece os nossos esforços na alimentação coletiva, mas também ao fato de que as nossas políticas conseguiram mobilizar agricultores, consumidores, cozinheiros”, orgulha-se Paul Holmbeck, diretor de estratégias da entidade.

Os dinamarqueses já estão a um passo de ter 60% dos ingredientes orgânicos nas refeições servidas em cantinas escolares, hospitais e outros estabelecimentos públicos. Em Copenhague, esse índice chega a 90%. A título de comparação, na França, a taxa não passa de 1,4%.

Preços em queda

Na Dinamarca, basta circular um pouco nos mercados para constatar que os orgânicos se democratizaram. “Quando são comprados em grande quantidade, eles custam apenas 20% a mais do que os não-orgânicos. É o menor índice encontrado na Europa. De 30 a 50% do leites, ovos, farinha e flocos de aveia vendidos na Dinamarca são orgânicos, além de muitos tipos de legumes”, sublinha Holmbeck.

“O nosso maior desafio continua sendo a carne e os laticínios, que, quando são orgânicos, ainda custam 50% a mais. Criar animais em boas condições, dar-lhes espaço, proteger a natureza, tudo isso tem um custo. Mas o consumidor dinamarquês, hoje, está disposto a pagar esse preço”, indica o diretor.

É por isso que a redução drástica do consumo de carne permanece o maior desafio para a agricultura 100% orgânica. No campo, Otto Rasmussen não tem dúvida de que a Dinamarca ainda vai atingir esse objetivo, se conseguir implementar mais essa mudança de costumes.

“Deveremos ter menos criações de porcos e vacas, e muito mais pasto. E também sonho com o momento, que vai chegar daqui a 30 ou 40 anos, em que vamos nos livrar dos agrotóxicos. Não entendo por que o homem deveria continuar a comer alimentos contaminados ou aceitar que os porcos nunca vejam o sol”, comenta o produtor. “E se todo mundo passar a consumir orgânicos, o preço para os consumidores vai cair ainda mais, obrigatoriamente.”

RFI

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